Internacionalização do pão de queijo

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Dias após uma pesquisa britânica apontar que o pão de queijo está em alta no mercado internacional, uma das principais revistas de gastronomia do mundo, a norte-americana Saveur, divulgou uma receita da quitanda.

O pão de queijo, que era praticamente desconhecido em outros países, começou a ser exportado, há pouco tempo (na forma de misturas prontas), e ficou conhecido como “brazilian cheese bread”, “pan de queso brasileño”, “petit pain au fromage brésilien” etc. Em cada país, foi traduzido para língua local. O que já seria motivo para comemorar, considerando que a divulgação e a, posterior, aceitação de um produto alimentar no exterior é tarefa longa e árdua.

Mas a Saveur traz no título “pão de queijo”, em português mesmo. Mudança que também começa a ser notada nas embalagens de misturas prontas para pão de queijo vendidas em outros países. Longe de ser uma simples questão de nacionalismo linguístico, ela aponta justamente para a construção de uma identidade gastronômica do Brasil no exterior.

Imagine, por exemplo, que estamos falando da gastronomia francesa. Uma das sobremesas que virá à cabeça é o tradicional crème brûlée. Ele poderia ser traduzido para “creme queimado francês”. Mas por ser tão autêntico gastronomicamente, ele é conhecido como “crème brûlée”, em qualquer parte do mundo, remetendo diretamente à culinária francesa.

Por que isso é importante?

A construção de uma identidade gastronômica internacional, a longo prazo, beneficia toda a cadeia produtiva da gastronomia e não apenas os grandes exportadores. Um turista, em uma viagem à França, provavelmente fará questão de experimentar um autêntico crème brûlée.

O mesmo acontecerá com o pão de queijo. Com isso, ganha desde quem prepara a massa, quem revende e até quem produz o queijo e outros ingredientes. É importante considerar, também, que se pão de queijo passa a ser produzido e consumido em outros lugares, o legítimo, feito em terras brasileiras sempre será o melhor. Ou, pelo menos, deverá ser. E para manutenção dessa demanda mais exigente, a produção também se profissionaliza. Cada um vai querer oferecer a melhor receita e com isso ganha todo mundo.

Sem farinha, por favor

Embora a receita publicada na revista Saveur leve farinha de trigo, o mesmo não ocorre com pão de queijo tradicional. E esse é um dos grandes trunfos da industria alimentar. A boa aceitação do pão de queijo no mercado internacional se deve justamente ao fato de ele não conter glúten (o glúten está presente em produtos à base de trigo).

A base do pão de queijo é o amido extraído da mandioca. No Brasil, ele é conhecido por diversos nomes polvilho, farinha de tapioca, goma, fécula de mandioca etc. No mercado internacional , ele é encontrado como “tapioca starch” ou “tapioca flour”.

Tapioca made in Thailand

tapioca-flourApesar de “tapioca” ser uma palavra de origem tupi-guarani, curiosamente, a farinha de tapioca vendida no exterior é, em sua maioria, proveniente de países do sudeste asiático. A mandioca é nativa da Amazônia e seus subprodutos são a base cultura alimentar brasileira, mas o país ocupa a sétima posição no ranking de exportação de amido de mandioca.

Os principais exportadores mundiais de polvilho são Tailândia e Indonésia, conforme último balanço da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). A incorporação da mandioca na agricultura asiática se deu durante a colonização brasileira. Primeiro, os portugueses levaram a planta pra África e, de lá, ela se espalhou rapidamente pela Ásia.

Erickson Aranda

Editor do site Sofisticado, Erickson Aranda especializou-se em jornalismo gastronômico e nutricional na Espanha. É pesquisador de história e cultura alimentar.

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